Road to EuroSteamCon
Entrevista a Armando Gabriel

by Corte do Norte

ArmandoGabriel

É sabido que não se pode falar de moda steampunk sem falar de espartilhos. Originalmente usada para estruturar os visuais Vitorianos de forma discreta, esta é uma peça de roupa que o steampunk puxou para o exterior e elevou a imagem de marca, combinada com uma cartola e um par de goggles.

A pouco mais de uma semana da EuroSteamCon, decidimos aliar-nos ao mestre corsétier Lisboeta, Armando Gabriel, para vos dar a conhecer mais sobre esta polémica peça.

Armando Gabriel estudou design de moda na África do Sul, onde criou peças de alta costura para clientes selecionados. Estudou design de vestuário para teatro e cinema em Milão, onde teve a oportunidade para pesquisar e aprofundar os seus conhecimentos. Armando foi depois para Lisboa, onde continuou o seu trabalho de atelier, incluíndo espartilhos feitos por medida. Mais recentemente,  colaborou em várias colecções com João Branco e Luis Sanches para  a marca Storytailors, sempre no âmbito da corséterie. Em 2007, foi para Paris, onde teve a boa fortuna de trabalhar com  Mr. Pearl, famoso corsétier, com quem criou espartilhos de alta costura para várias vedetas, incluindo Dita Von Teese e Kylie Minogue. (via)

 

Corte do Norte: Estudou em África do Sul, trabalhou em Paris, e está agora instalado em Lisboa. Como tem sido a experiência de trabalhar com o público português?

Armando Gabriel: O público português tem demonstrado muito interesse no que toca ao espartilho e noto um aumento na procura deste tipo de artigo. Tenho trabalhado com noivas e artistas do burlesco, principalmente, mas também aparecem clientes que à partida nunca se espera serem entusiastas do corset.

CN: Estamos habituados a entrar numa loja de roupa, escolher, e pagar, mas… digamos que o meu próximo objectivo é ter um espartilho Armando Gabriel. Que processo me espera?

pink fancyAG: Na primeira reunião falamos sobre o estilo do espartilho mais adequado ao corpo da cliente, função do mesmo, e materiais. Segue-se então a medição muito cuidadosa de várias partes do torso, cintura, ancas, peito, etc. Na fase seguinte, moldes são cortados de acordo com o conceito e medidas pessoais da cliente. A segunda reunião consiste em provar o espartilho que é confeccionado em lona. Correções são feitas à peça e posteriormente aos moldes. Numa terceira fase, a peça é provada já no material escolhido. Tudo estando bem e se o espartilho satisfaz em termos de modelação da silhueta, termino então a peça.

CN: O espartilho é, ainda, aos olhos de muitos, uma peça de roupa “histórica”. Qual a sua época favorita, em termos de silhuetas?

AG: Sou apaixonado por toda a história do espartilho, que tem sensivelmente 500 anos! Tenho uma especial sensibilidade para o tipo de espartilho usado na Belle Époque, no entanto.

CN: Valerie Steele, autora do livro “The Corset: A Cultural History”, credita designers como Vivienne Westwood como responsáveis pela ressureição do espartilho nos anos 70. O que pensa sobre isto? O espartilho precisou de ser ressuscitado, ou nunca morreu sequer?

AG: O espartilho nunca desapareceu por completo. Se a Vivienne Westwood explorou a peça nos anos 70, tal como fez com muitas outras peças emblemáticas da história do traje, não podemos esquecer o Thierry Mugler que muito fez para colocar o espartilho no lugar de destaque que hoje tem. Nas sub culturas, como, por exemplo, a do fetiche, esta peça foi sempre rainha. Mesmo nos anos 20 quando se diz que a peça foi abandonada, as senhoras mais volumosas precisaram sempre de alguma ajuda para controlar a silhueta, portanto, é pouco provável que o espartilho tenha desaparecido do guarda roupa feminino em qualquer altura.

clearCN: A terceira Oxford Conference Of Corsetry teve lugar há menos de um mês, e tal como em anos anteriores, inspirou vários criadores a apresentar espartilhos incrivelmente inovadores. O espartilho vai-se tornando, assim, cada vez mais relevante no século XXI, mas a variedade de designs e materiais leva a uma dúvida – o que é que define, verdadeiramente, um espartilho?

AG: Independentemente dos materiais usados na confecção do espartilho, esta peça precisa sempre de ter uma certa robustez e resistência, não podendo esticar ou esgaçar com o uso. Terá de ser estável, através do uso de barbas de aço, e suportar grande pressão, permitindo ao seu utilizador o maior grau de conforto possível, simultaneamente moldando a silhueta.

CN: Também o famosíssimo Mr. Pearl esteve presente na conferência acima mencionada, pelo que não podemos ignorar esta questão – como foi trabalhar com Mr. Pearl durante a sua estadia em Paris?

AG: Trabalhar com o Mr. Pearl foi, sem dúvida, umas das melhores experiências da minha vida. O Pearl é um grande mestre nesta área e percebe imenso da arte de esculpir o corpo, sendo ele próprio portador de espartilho.

peacockCN: O espartilho é, sem dúvida, uma das mais polémicas peças de roupa alguma vez inventada, e preconceitos abundam. Qual a ideia pré-concebida que mais o incomoda, relativamente ao uso de espartilhos?

AG: Eu costumo dizer que o espartilho é uma peça de roupa exigente. Não basta vesti-la como se faz por exemplo com um casaco, a peça impõe a sua presença e há um ritual inerente à sua colocação. A ideia comum é que não se consegue respirar com o corset posto! O corpo adapta-se rapidamente e é possível fazer uma vida normal com esta peça vestida.

CN: Finalmente, está familiarizado com a estética steampunk, onde os espartilhos são tantas vezes utilizados como peças de roupa exterior? O que acha da mesma?

AG: O espartilho tanto pode ser peça de roupa íntima como pode fazer parte da toilette mais sumptuosa! Tem muitas aplicações e o seu uso é limitado unicamente pela imaginação do seu criador. O movimento steampunk alia o retro ao futurismo e é justamente este o fascínio que o espartilho sempre provocou ao longo dos tempos. A função permanece a mesma, mas o tratamento estético associado à evolução tecnológica assegura a permanência desta peça no guarda roupa da Humanidade.


Da nossa parte, vimos muitos espartilhos de variadíssimas origens nas EuroSteamCons anteriores, e esperamos ver muitos mais este ano. Já finalizaram os vossos visuais steampunk? Falta pouco mais de uma semana!

 

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